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"Revolução dos Baldinhos" promove limpeza e compostagem na Chico Mendes

 Coleta na Chico Mendes. Clique na imagem para ver álbum 

por Fernando Angeoletto 

A mulher grávida abre a porta na diminuta fachada de 4 metros, atrás de um modesto quintalzinho, ocupado por um cachorro preguiçoso e uns pedaços de tapete velho. De relance, conto umas 6 crianças atrás dela, além de uma senhora deitada no sofá e um homem.
- A cesárea não estava marcada para hoje? – pergunta Nice, agente comunitária e moradora da Chico Mendes.
- Sim. Mas só vou ao hospital quando sentir as dores – responde calmamente a mulher, que aparenta uns 30 anos, e não fosse a barriga nem se desconfiaria que está no último dia de gestação.
Logo que saímos, pergunto:
- Será o sétimo filho?
- Não. O décimo. Três não estavam ali na casa – responde Nice.
De tanto andarem pela comunidade e visitarem as casas, explica-me, elas acabam fazendo o papel de assistentes sociais. A função de Eunice Brasil Vieira e Rose Helena Oliveira Rodrigues, no entanto, é outra, e um tanto inusitada.
De casa em casa, vão arrebanhando novos participantes para o programa que ganhou o apelido de “Revolução dos Baldinhos”. As famílias que topam participar recebem um pequeno recipiente para depositarem seus resíduos orgânicos. Outras famílias, em pontos estratégicos, recebem baldes maiores, as bombonas, e tornam-se PEV´s (Pontos de Entrega Voluntária) da vizinhança. E então, com a freqüência de 2 vezes por semana, a Nice e a Rose, auxiliadas por um bolsista do Cepagro, circulam com um carrinho coletando as cascas e sobras de alimentos de boa parte da comunidade.
Todo o volume recolhido é levado à Escola América Dutra Machado. Lá, os restos de alimento passam pelo processo de compostagem termofílica, e em cerca de 3 meses transformam-se em fértil composto orgânico. Este, por sua vez, nutre o solo que acomoda viçosas hortas na comunidade.
Esta admirável alquimia protagonizada pelas bactérias, a compostagem, é um dos evidentes benefícios alcançados pelo trabalho da Nice e da Rose. Mas não pára por aí.
- Boa parte deste lixo era jogado em cantos e terrenos baldios da comunidade. Ratos e baratas eram freqüentes, um horror, agora já diminuíram bem – avalia Nice.
Kátia, merendeira da Creche Chico Mendes, conhece bem esta realidade. Há cerca de 2 anos, passou a organizar e coordenar o processo de compostagem na entidade.
- Antes, havia bichos nos arredores da Creche, e “aquele” mau cheiro. Agora temos muita vida por aqui – diz ela mostrando a horta, que é também um importante aliado pedagógico da criançada.
Por mês, cerca de 2 toneladas de resíduos estão sendo recolhidos e processados pela Nice e pela Rose. Mas o propósito é ampliar ainda mais a adesão das famílias e o volume da coleta. Elas já estão de olho num generoso terreno público, nos fundos da quadra esportiva, que acaba servindo de lixão pros moradores pouco instruídos. O sonho é transformar o espaço num grande PEV e pátio de compostagem. A continuidade das ações foi garantida recentemente, com a renovação da bolsa financiada pela Eletrosul.

 

Histórico

Há cerca de um ano, profissionais do Posto de Saúde e outras entidades locais da Chico Mendes resolveram unir esforços para resolver um grande problema: o lixo orgânico espalhado pela comunidade, e a conseqüente infestação de bichos e vetores de doenças.
O Cepagro, que já atuava em Agricultura Urbana, e a ACAMOC (Ação Comunitária Ambiental da Região do Monte Cristo), foram algumas das entidades convidadas a debater o tema. A compostagem termofílica, na época já praticada na Escola América Dutra e na Creche Chico Mendes, foi apontada como uma solução possível e viável.
Eunice Brasil e Rose Helena, que integravam a FTT (Frente Temporária de Trabalho, da ACAMOC) recebendo instruções teóricas e práticas sobre trabalhos ambientais, dispuseram-se a trabalhar no processo, viabilizando a existência da “Revolução dos Baldinhos”.