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Circuito de Comercialização potencializa agricultura agroecológica
No início de 2006, o produtor agroecológico Gilmar José Ostroviski, de Três Arroios (RS), percebeu a estagnação no comércio dos produtos. Mantinha-se, na feira local tocada por 34 famílias, a mesma arrecadação todos os meses, ao longo de 6 anos: algo entre R$ 8.000 e R$ 9.000, não mais que isso.
Pensando na expansão, a primeira medida adotada por Gilmar e seu grupo foi negociar com uma pequena rede varejista, que logo tornou-se responsável por 20% das vendas gerais. Mas ainda era pouco. E a idéia mais ousada surgiu na ocasião de um intercâmbio entre a Ecoterra, entidade extensionista de Erechim (RS), e a AOPA (Associação para o Desenvolvimento da Agroecologia), de Curitiba. Na visita à capital paranaense, Gilmar soube que havia lá uma carência de laranja orgânica, produto farto em Três Arroios. Em pouco tempo, articulou-se o envio de ½ tonelada de laranjas, a cada semana, do RS ao PR.
Na seqüência dos fatos, a Cooperativa Ecoserra, de Lages (SC), e a Associação Cooperafloresta, de Barra do Turvo (SP), uniram-se à AOPA e à Ecoterra para criar, ainda de modo tímido, o Circuito de Comercialização da Rede Ecovida de Agroecologia. Inicialmente, banana, maçã e laranja começaram a circular pela rota, num sistema baseado em trocas, com pouca circulação de dinheiro. Neste intercâmbio, as feiras locais passaram a ter maior diversidade de produtos e, conseqüentemente, melhores vendas. É aí que o dinheiro aparece.
Hoje, a feira local do grupo de Gilmar movimenta algo em torno de R$ 22 mil por mês, divididos entre 29 famílias, uma vez que 5 deixaram a atividade. Já o Circuito, passados 3 anos de funcionamento, possui uma lista de 66 produtos ofertados. Neste período, calcula-se uma movimentação financeira da ordem de R$ 1,5 milhão, com 830 toneladas de produtos negociadas, provenientes de 900 famílias.
De olho na Merenda Escolar
Há algumas premissas a respeito do que é vendido no Circuito. Em primeiro lugar, só aceitam-se produtos agroecológicos certificados pela
Rede Ecovida de Agroecologia. A formação de preços leva em conta os princípios da Economia Solidária, buscando, num equilíbrio dinâmico e freqüentemente reavaliado, remunerar de modo justo os agricultores sem onerar demais o preço final aos consumidores. E todas as decisões são tomadas em conjunto, de maneira horizontal em reuniões mensais e itinerantes, onde discutem-se ofertas e demandas e novos canais de comercialização, entre outros assuntos.
Na última reunião, realizada em 13/07 no município de Presidente Getúlio (SC), a ampla participação refletiu a expressividade do Circuito. Prefeituras, cooperativas, secretarias de agricultura e entidades extensionistas foram representadas, além dos agricultores agroecológicos presentes, totalizando cerca de 60 pessoas. Dentre os assuntos, destaque para a questão da
Merenda Escolar, que agora terá no mínimo 30% dos produtos com origem na agricultura familiar, por força de Lei Federal.
Neste ponto, a existência do Circuito é crucial. É ele quem vai possibilitar, segundo avaliação das entidades envolvidas, a diversidade e quantidade de produtos para honrar futuros contratos com as prefeituras, que recebem verbas do
FNDE para repasse à Merenda. Mas é preciso cautela: “se não cuidar, o governador acaba optando pela terceirização (empresas que fornecem os alimentos, através de constante
lobby). Vamos barrar isso, com toda força”, alerta Antonio Augusto Mendes dos Santos, agricultor de Laguna e presidente do CAE (Conselho de Alimentação Escolar), órgão consultivo e deliberativo vinculado à Secretaria Estadual de Educação.
Outro assunto foi o apoio emergencial à população do Vale do Itajaí, que até hoje ainda sofre as mazelas em conseqüência das enchentes. Por conta disto, a
CONAB vai disponibilizar um recurso de R$ 300 mil para a compra de alimentos. Agricultores de Laguna, Jaguaruna, Praia Grande, Presidente Getúlio, Leoberto Leal, Paulo Lopes e Garopaba, integrantes do Circuito de Comercialização, listaram os produtos que tem à disposição. Cada família que possui a
DAP, de acordo com as regras do PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) da CONAB, pode vender até R$ 3.500 por ano ao programa.
A próxima reunião do Circuito, que está em franca expansão, ficou marcada para 13/08 em Três Arroios (RS).