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Ex-fumicultores e o novo paradigma produtivo

Ex fumicultores que optaram pela Agroecologia

 

por Fernando Angeoletto

O que haveria de comum entre os agricultores Regnaldo Melcher, de São Bonifácio, e Gilmar Cognacco, de Leoberto Leal, distantes 150 km um do outro, em microrregiões de cultura e clima distintos? A vivência de campo do Cepagro, em sua missão de formar e assistir os grupos produtivos, permite traçar uma série de paralelos entre esses 2 e tantos outros agricultores.

Pra começar, ambos são ex-plantadores de fumo. Envolveram-se na atividade desde cedo, ainda crianças, e conhecem bem a sina da intoxicação (por veneno e pela nicotina), do trabalho extenuante e mal remunerado, da expropriação pelas poderosas indústrias fumageiras.

Moradores de áreas afastadas e de difícil acesso, como a Vargem dos Bugres, onde vive Gilmar, e o Rio do Poncho, comunidade do Regnaldo (assim mesmo, sem o “i”), essas e outras famílias viveram sempre no dilema da dificuldade de escoar de seus produtos, sendo, portanto, vítimas do engenhoso “sistema de integração” proposto pelas fumageiras. Do financiamento da produção ao transporte do fumo, essas empresas foram sempre tratadas como uma alternativa milagrosa, embora hoje em dia constata-se facilmente neste “milagre” uma extensa lista de desvantagens, tanto para o meio ambiente quanto para os próprios agricultores.

Regnaldo e Gilmar tem outro ponto em comum: enfrentaram a fumicultura com garra e coragem, optando pelo paradigma produtivo da Agroecologia. Regnaldo convenceu seus vizinhos, formou um grupo de produtores de hortaliças e verduras ecológicas, organizou a compra coletiva de uma caminhonete e hoje comercializa os produtos em 3 feiras semanais na grande Florianópolis. Numa aposta conjunta, 9 famílias dependem agora deste sistema produtivo, que na avaliação de Regnaldo deve ter um incremento aproximado de 50% em 2010, melhorando a renda de todos.
Gilmar Cognacco começou a abandonar o fumo com a produção de leite ecológico, à base de pasto. Percebeu que na nova atividade, além da boa renda e de livrar-se do veneno, teria maiores chances de manter seus 7 filhos na propriedade. Depois do leite começou com a cebola ecológica, e a partir daí a diversificação decolou: sua propriedade tem hoje batata salsa, batata doce, batata inglesa, maracujá doce, abobóras e um formoso parreiral em desenvolvimento.

Por fim, um forte elo une os agricultores Gilmar Cognacco e Regnaldo Melcher: trata-se do Circuito de Comercialização da Rede Ecovida de Agroecologia. Gilmar está muito satisfeito com as vendas ao parceiro de São Bonifácio, que faz os produtos de excelente origem chegarem até Florianópolis. Já Regnaldo amplia a oferta em suas feiras, consegue mais clientes e segue cada vez mais motivado em sua luta.